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Documentos

Apostila de Haia em Portugal: O Que É, Para Que Serve e Como Obter

9 min

Um cliente nosso, recentemente contratado por uma empresa no Brasil, deparou-se com um problema que, à primeira vista, parecia simples: precisava de apresentar o seu diploma universitário português às autoridades brasileiras. O documento estava em perfeita ordem — emitido pela universidade, assinado, carimbado. Mas sem a apostila de Haia, não tinha qualquer validade jurídica no Brasil. O que parecia uma formalidade tornou-se, durante semanas, uma corrida contra o tempo entre serviços públicos, cartórios e prazos de contratação.

Este cenário repete-se com frequência. Portugueses que emigram, estrangeiros que regressam ao país de origem com documentos emitidos em Portugal, empresas que precisam de reconhecer contratos ou procurações além-fronteiras — todos acabam por se cruzar com a apostila de Haia. E, apesar de ser um mecanismo criado precisamente para simplificar a vida, o processo pode tornar-se confuso sem o devido acompanhamento.

O Que É a Apostila de Haia

A apostila de Haia é uma certificação internacional que autentica a origem de um documento público, tornando-o reconhecido nos países signatários da Convenção da Haia de 5 de outubro de 1961 — formalmente designada Convenção Suprimindo a Exigência de Legalização dos Actos Públicos Estrangeiros. Portugal ratificou esta convenção, e hoje mais de 120 países fazem parte dela, incluindo o Brasil, os Estados Unidos, a Alemanha, a Espanha, a França e muitos outros.

Antes da existência desta convenção, um documento público emitido em Portugal que precisasse de ser reconhecido no estrangeiro tinha de passar por um processo de legalização consular moroso e dispendioso: autenticação pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português, depois pelo consulado do país de destino em Lisboa, e por vezes ainda por outras entidades. A apostila veio substituir toda essa cadeia por um único certificado padronizado, aposto diretamente no documento ou numa folha anexa.

É importante sublinhar o que a apostila não faz: não certifica o conteúdo do documento, não confirma que a informação nele contida é verdadeira, e não substitui traduções juramentadas quando estas são exigidas pelo país de destino. A apostila apenas atesta que a assinatura, o carimbo ou o selo que consta no documento é genuíno e que a entidade que o emitiu tinha competência para o fazer.

Que Documentos Podem Ser Apostilados em Portugal

Nem todos os documentos são apostiláveis. A Convenção da Haia abrange exclusivamente documentos públicos, o que em Portugal inclui:

  • Documentos emitidos por conservatórias do registo civil, predial ou comercial (certidões de nascimento, casamento, óbito, escrituras, certidões de registo comercial)
  • Documentos notariais (procurações, testamentos, reconhecimentos de assinatura)
  • Documentos judiciais (sentenças, certidões de registo criminal emitidas pelos tribunais)
  • Documentos administrativos (diplomas universitários autenticados, certidões emitidas por serviços do Estado)
  • Documentos emitidos por entidades com fé pública (como solicitadores com funções notariais)

Documentos privados — como contratos entre particulares, cartas, declarações pessoais — não podem ser diretamente apostilados. Para que um documento privado possa receber apostila, é necessário primeiro submetê-lo a reconhecimento notarial em Portugal, transformando-o assim num documento público.

Quem Pode Apostilar em Portugal

Em Portugal, a competência para emitir apostilas está distribuída por várias entidades, consoante a natureza do documento:

Conservatórias do Registo Civil, Predial e Comercial

As conservatórias apostilam os documentos que elas próprias emitem. Assim, se precisar de apostilar uma certidão de nascimento, deve dirigir-se à conservatória que emitiu o documento — ou a qualquer conservatória do registo civil, uma vez que o sistema está informatizado e centralizado. O mesmo se aplica a certidões do registo predial e comercial.

Cartórios Notariais

Os notários apostilam os documentos que lavram ou autenticam, como procurações, testamentos e reconhecimentos de assinatura. Se tiver uma procuração lavrada num cartório notarial em Lisboa e precisar de a usar no estrangeiro, é ao mesmo cartório — ou a qualquer notário — que deve recorrer.

Tribunais

Os tribunais apostilam documentos judiciais, como certidões de sentenças, alvarás e outros atos processuais. A apostila é emitida pela secretaria do tribunal competente.

Procuradoria-Geral da República

A PGR tem competência residual para apostilar documentos que não se enquadrem nas categorias anteriores, nomeadamente documentos emitidos por ministérios e outros serviços da administração central do Estado.

O Processo Passo a Passo

O procedimento para obter uma apostila em Portugal é, na maioria dos casos, relativamente direto. Eis como funciona na prática:

1. Obter o documento original ou uma certidão atualizada

O primeiro passo é garantir que tem o documento original ou uma certidão recente emitida pela entidade competente. Muitas entidades estrangeiras exigem que os documentos apostilados tenham sido emitidos há menos de seis meses — convém verificar este requisito junto da entidade de destino antes de iniciar o processo.

2. Identificar a entidade apostilante

Conforme explicado acima, a entidade que apostila é, em regra, a mesma que emitiu o documento ou a que tem competência sobre o tipo de documento em causa. Em caso de dúvida, o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) disponibiliza informação atualizada sobre as entidades competentes.

3. Apresentar o pedido

O pedido pode ser feito presencialmente ou, em muitos casos, através do portal ePortugal ou dos serviços online do IRN. Para documentos do registo civil, o serviço online é particularmente conveniente: é possível solicitar a certidão e a apostila em simultâneo, recebendo o documento apostilado por correio ou em formato digital.

4. Pagar as taxas

As taxas variam consoante a entidade e o tipo de documento. A título indicativo, a apostila de uma certidão do registo civil custa atualmente 20 euros por documento. Documentos notariais e judiciais têm tabelas próprias. Convém confirmar os valores atualizados junto da entidade competente, uma vez que as taxas são periodicamente revistas.

5. Aguardar o prazo de emissão

Os prazos variam. Nas conservatórias do registo civil com serviço online, a apostila pode ser emitida em poucos dias úteis. Em cartórios notariais, o prazo depende da disponibilidade do notário e da complexidade do documento. Em tribunais, os prazos podem ser mais longos — entre uma e três semanas, dependendo da secretaria e do volume de trabalho.

Apostila Digital: O e-Apostille

Portugal aderiu ao sistema de apostila eletrónica (e-Apostille), que permite a emissão de apostilas em formato digital com assinatura eletrónica qualificada. Este sistema tem várias vantagens práticas: elimina a necessidade de deslocação presencial, reduz os prazos de emissão e facilita a transmissão do documento ao destinatário estrangeiro por via eletrónica.

A autenticidade de uma apostila eletrónica portuguesa pode ser verificada através do registo eletrónico mantido pela autoridade emissora, acessível online. Muitos países já aceitam apostilas eletrónicas, mas convém confirmar previamente se o país de destino as reconhece — alguns ainda exigem o formato em papel.

Quando a Apostila Não É Suficiente: Tradução Juramentada

Um erro frequente é assumir que a apostila dispensa a tradução do documento. Não dispensa. A apostila certifica a autenticidade da origem do documento; se o país de destino não compreende a língua portuguesa, exigirá igualmente uma tradução juramentada (também chamada tradução certificada ou tradução oficial).

No Brasil, por exemplo, os documentos em português apostilados são geralmente aceites sem tradução, uma vez que a língua é comum. Mas nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Japão, o documento apostilado terá de ser acompanhado de uma tradução juramentada para a língua do país de destino, realizada por um tradutor reconhecido pelas autoridades locais.

Em alguns casos, a própria apostila — que é redigida num formulário padronizado em francês, com campos em inglês — pode também precisar de tradução, embora na prática a maioria das autoridades estrangeiras a reconheça sem dificuldade.

Países Não Signatários da Convenção da Haia

Se o documento se destina a um país que não é signatário da Convenção da Haia — como Angola, Moçambique, Cabo Verde ou alguns países do Médio Oriente —, a apostila não é reconhecida. Nestes casos, mantém-se o processo de legalização consular tradicional: autenticação pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português e, posteriormente, pelo consulado do país de destino em Portugal.

Antes de iniciar qualquer processo, é sempre prudente confirmar junto da entidade de destino — seja uma empresa, uma universidade ou um serviço público estrangeiro — exatamente que tipo de legalização exige e se o país em causa é signatário da Convenção.

Situações Práticas Mais Comuns

Na nossa prática, os pedidos de apostila surgem com maior frequência nas seguintes situações:

Emigração para o Brasil ou outros países lusófonos: Diplomas universitários, registos criminais, certidões de nascimento e casamento para processos de reconhecimento de habilitações ou de reagrupamento familiar.

Investimento imobiliário no estrangeiro: Procurações outorgadas em Portugal para representação em atos notariais no estrangeiro, certidões do registo predial para comprovar titularidade.

Processos de imigração em Portugal: Documentos estrangeiros que precisam de ser reconhecidos em Portugal também podem necessitar de apostila emitida pelo país de origem — o processo é simétrico.

Casamentos internacionais: Certidões de nascimento e de estado civil para apresentação nos registos civis estrangeiros.

Processos judiciais internacionais: Sentenças portuguesas para reconhecimento no estrangeiro, ou documentos estrangeiros para juntar a processos em Portugal.

Como a JMS Legal Pode Ajudar

Embora o processo de apostila seja, em teoria, acessível a qualquer pessoa, a prática mostra que os erros são frequentes: documentos emitidos há demasiado tempo, apostilas obtidas na entidade errada, traduções em falta, ou países de destino com requisitos específicos não antecipados. Estes erros têm custos — em tempo, em dinheiro e, por vezes, em oportunidades perdidas.

Na JMS Legal, acompanhamos clientes em todo o processo de legalização de documentos, desde a identificação dos documentos necessários até à obtenção das apostilas e coordenação de traduções juramentadas. Se tem documentos portugueses que precisam de ser reconhecidos no estrangeiro — ou documentos estrangeiros para usar em Portugal —, contacte-nos para uma consulta inicial.

JMS Legal — Advogados
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